
Agora que os dias se começam a alongar como se estivessem a espreguiçar para alcançarem a Primavera, apetece já, nos dias soalheiros, partir para um pequeno passeio, que seja perto de casa. Há, no concelho de Montijo, uma pequena vila, que guarda nas suas ruas o mistério da História, nas margens da sua ribeira lendas de Abu Yusuf Ya’qub al-Mansur e no rosto das suas gentes a hospitalidade de gente franca e serena, e que merece ser visitada. A vila chama-se Canha. Visitar Canha é parar o relógio. O passeio, a pé, pelas suas ruas leva-nos à pacatez do Alentejo, mas também ao descobrimento de um tempo marcado por um relógio intemporal; ao encontro de nós mesmos; ao benefício do usufruto da qualidade do ar e da pacata paisagem.
Lamenta-se o casario, que foi outrora belo, embora aqui e ali em ruínas ou em mau estado, mas, ainda assim, onde sobram apontamentos arquitectónicos a que a objectiva não se furtará. Canha orgulha-se da Ermida de S. Sebastião, ou Igreja da Misericórdia, que recebe, na rua principal, o visitante. Contudo, é à Senhora de Oliveira que Canha lança as suas preces e a festeja, em animada comemoração, em se aprontando Setembro para reinar. A Igreja Paroquial de Nossa Senhora de Oliveira merece uma visita demorada. Não se conhece a primitiva igreja de Canha, que terá sido construída no século XII.

A actual Igreja de Nª Senhora de Oliveira foi instituída no século XVI e sofreu várias campanhas de obras ao longo dos séculos. Adossada à igreja existe uma capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário, datada também do séc. XVI, enquadrada por um belo arco de gosto renascentista e com as paredes revestidas de azulejos. Nesta capela é digno de admiração um retábulo de talha dourada, com tábuas pintadas que representam cenas da Vida de Nossa Senhora. As paredes laterais da Capela-Mor e o arco que a separa do corpo da Igreja são forradas com azulejos policromos do século XVII. O Rio Almansor, que em Canha toma o nome de Ribeira de Canha, convida a um passeio pelas suas margens e aconselha prudência a quem o utilizar. Quem suspire de nostalgia por um piquenique encontrará na Fonte Velha, também conhecida por Fonte do Povo, o sítio ideal para saborear a sua merenda. A água corre farta e pura, julga-se que desde, pelo menos, há 300 anos, de uma nascente protegida por uma abóbada; a sombra é frondosa, a paisagem recatada e acolhedora. Diz a tradição que Canha teve um castelo, mas, hoje, tirando a rua com esse nome, nada mais se conhece. Resiste, no entanto, o edifício onde funcionou a Câmara Municipal de Canha, o tribunal e a cadeia, em cuja fachada se destaca o arco sineiro com o Brasão Real de Portugal, e que hoje está transformado em quartel da Guarda Nacional Republicana. D. Afonso Henriques outorgou o primeiro foral a Canha. Novos tempos se abrirão à vila com a construção do aeroporto. Enquanto as máquinas não rugem e Canha não estremece da sua pacatez, aproveite, visite Canha!

Por: Rui Aleixo
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